Mentoria: Redescobrindo o coração do pastorado

 

I - Breve Histórico:

Desde a antiguidade, a prática da mentoria é encontrada entre sábios tanto na cultura judaica, como na grega. Na história da fé cristã, a prática da orientação espiritual remonta a primórdios da igreja, especialmente na prática da Igreja Ortodoxa Oriental e dos pais do deserto. Exemplo disso é a preocupação de Orígenes para com Gregório de Neocesaréia. Através da leitura das Escrituras, Orígenes inspira Gregório a uma vida de maior amor a Deus e à Sua vontade.

De Orígenes até a Reforma, a orientação espiritual é grandemente caracterizada pelos valores e costumes dos pais do deserto, precursores do movimento monástico da idade média. Aqueles que se aproximavam para aprender com os monges e guias espirituais do deserto eram iniciados nas disciplinas da solitude, do silêncio, do jejum, da leitura das Escrituras, da oração e das boas obras.

No período posterior à Reforma, a direção espiritual foi ora minimizada, ora revestida de outro caráter, pelo receio de se colocar qualquer elemento outro, que não Cristo, como mediador na relação entre o homem e Deus. Mesmo assim, Richard Baxter, em seu livro O Pastor Reformado, recomenda aos pastores que trabalhem com vigor na esfera do conselho e orientação pessoal.1

Ao longo dos tempos, a prática da orientação espiritual foi denominada de diversas formas. O orientador foi chamado de guia espiritual, diretor espiritual, mentor, amigo de alma, companheiro de oração, entre outros nomes. Seja qual for a denominação dada, o importante é salientar que, na tradição cristã, a graça de Deus na vida do orientador e do orientado sempre foi tida como o fator principal do processo.

 

 

II.  Prática

A orientação espiritual implica em ajudar uma pessoa a perceber o mover de Deus em sua vida, o que muitas vezes significa dar atenção ao que é tido como insignificante. Como afirma Peterson, “direção espiritual é levar a sério, com atenção e imaginação disciplinada, aquilo que outros tomam como casual... nomeando, atentando e conversando, nós ensinamos nossos amigos a ‘lerem o Espírito’ e não apenas os jornais”.2 Assim, o papel do orientador está diretamente relacionado ao discernimento daquilo que Inácio de Loyola chamou de “movimentos dos espíritos”. Ou ainda, na linguagem de Rowland Croucher, o orientador espiritual ajuda uma pessoa a descobrir os “rumores” que são de Deus em sua vida, bem como os que não são.3  Desta forma, a orientação espiritual exige sensibilidade para se perceber o que Deus está fazendo através do que é tido como ordinário na vida de outro.

Segundo Peterson, três convicções pressupõem a mentoria:

  1. Deus está sempre fazendo algo na vida de uma pessoa. A ação graciosa de Deus está constantemente agindo e moldando uma vida, convidando-a a seguir na direção da maturidade.
  2. Responder a Deus não é trabalho que pode ser feito sem atenção e sem consciência, por isso, ao longo dos séculos, a comunidade cristã tem acumulado certa sabedoria que deve ser usada para nos oferecer a orientação necessária.
  1. Cada alma é única. Não podemos chamar de sabedoria o falar que não considera as particularidades de uma vida e as condições específicas de cada situação enfrentada.4

Faz-se necessário esclarecer que, para muitos pastores, a prática da orientação espiritual não implica em colocar em suas agendas atividades outras das que já fazem habitualmente. Na verdade, para a prática desta tarefa tão essencial no ministério pastoral, precisamos ter a disciplina em prestar maior atenção àquilo que temos tido por ordinário e nos tornar sensíveis ao mover de Deus na vida daqueles que nos cercam.

Além disso, precisamos reconhecer que a prática da orientação espiritual não é exclusividade daqueles que são ministros ordenados. Crentes em Cristo, nas mais variadas circunstâncias, podem ser usados como orientadores espirituais. No entanto, é importante observar o alerta que Peterson nos faz: “o fato de que qualquer um pode fazer isso e pode fazê-lo em qualquer lugar, não significa que isso pode ser feito casual e indiferentemente. Isso precisa ser praticado a partir de uma vida imersa na busca por santidade”.5

 

III.  O aconselhamento, o discipulado e a orientação espiritual

Creio ser importante fazermos uma breve e simples distinção entre a prática da orientação espiritual e outras práticas contemporâneas da igreja.

Primeiramente, gostaria de diferenciar a prática da orientação espiritual do tradicional aconselhamento pastoral. A orientação espiritual é caracterizada por uma prática pastoral mais abrangente e inclusiva de promoção de cura, confiança e maturidade, durante todo o ciclo da vida. Por outro lado, o aconselhamento pastoral se constitui como uma ferramenta pastoral que faz uso de uma variedade de métodos terapêuticos para ajudar as pessoas a lidarem com suas crises. Assim, as pessoas precisam de orientação espiritual ao longo de toda vida e podem precisar de aconselhamento pastoral em tempos de graves crises.

Em segundo lugar, o discipulado cristão é uma importante prática de apoio a pessoas em sua caminhada à maturidade de vida em relação a Deus e ao próximo. Neste sentido, o discipulado se confunde com a orientação espiritual. No entanto, dois elementos são distintivos:

  1. A orientação espiritual promove a iniciação da pessoa nas práticas espirituais, bem como a acompanha nesta jornada de incertezas e descobertas.
  2. A orientação espiritual é caracterizada pela sabedoria do orientador e não pelo mero conhecimento. Na orientação espiritual o orientador oferece discernimento e ânimo, muito mais do que informação.
    Falando desta distinção, Ricardo Barbosa de Souza afirma:

...a mentoria espiritual não é um programa de discipulado, e nem se trata de um mestre ou orientador que nos ensina e aconselha. Trata-se de alguém que caminha conosco e nos ajuda a conhecer nossa interioridade, nossas fraquezas e pecados e encontrar o caminho do nosso coração e da oração.6

 

IV.  A Centralidade da Oração

Longe de ser casual, a tradição da orientação espiritual sempre esteve por demais ligada à prática da oração. A oração se constitui elemento central na orientação espiritual por, pelo menos, duas razões:

  1. As pessoas em busca de Deus desejam aprender a orar. Quando lemos os evangelhos, encontramos a informação de que João Batista ensinava seus discípulos a orar. Por sua vez, os discípulos de Jesus pedem para que os ensine a prática da oração. Assim também, nada é mais importante na tarefa pastoral, quando diante de pessoas em busca de intimidade com Deus, do que ensiná-las a orar e conduzi-las através da prática da oração. Orar com e pelas pessoas centraliza o desejo em Deus e coloca as dificuldades sob a perspectiva de Deus. No entanto, como afirma Peterson, não existe clara separação entre as conversas que o pastor tem com as pessoas e a continuação desta conversa em oração. O único sinalizador de passagem entre a conversa e a oração talvez seja uma das frases mais significantes quando proferidas por um pastor de forma responsável, “Eu vou orar por você”.
  1. Através da oração, as bases de relacionamento da pessoa com Deus e com seus semelhantes são manifestas. Em seu livro Five Smooth Stones for Pastoral Work, Peterson aponta para a estreita relação entre a forma como uma pessoa ora e sua visão de Deus, da vida e das pessoas que lhe cercam.  Isso leva Croucher a reconhecer que os melhores orientadores espirituais são, via de regra, gente muito sensível para ouvir, perceber e atender os principais movimentos interiores na oração de uma pessoa. A oração ou falta de oração, bem como os sentimentos, as ansiedades, os medos e os temores manifestos através dela são grandes sinalizadores para o trabalho realizado na orientação espiritual”.7
     

V.  Cuidados

Como podemos perceber, a prática da orientação espiritual exige muita responsabilidade e maturidade por parte daquele que se propõe a ser um orientador. Por isso mesmo, alguns cuidados são necessários na vida e ministério daquele que se engaja na orientação de outros.

Em primeiro lugar, a mentoria precisa ser vista como uma prática diretamente relacionada à oração e leitura das Escrituras. Como Peterson propõe, a oração é um ato através do qual exercito minha alma a estar na presença de Deus e atenta ao que Ele está fazendo em minha própria vida. Enquanto isso, a leitura das Escrituras exercita-me a prestar atenção na forma como Deus tem falado e agido na vida e história de Seu povo ao longo dos últimos dois milênios. Como conseqüência, a orientação espiritual exige de mim a percepção ao que Deus está fazendo na vida da pessoa que tenho diante de mim.8

Esta estreita relação entre oração, leitura das Escrituras e mentoria faz com que a vida do mentor esteja sendo constantemente regada e nutrida pelo Espírito. Além do mais, exercita sua constante sensibilidade para com o mover de Deus em sua vida, na história e na vida daqueles que o rodeiam. Assim, a prática da oração e da leitura das Escrituras tornam-se elementos inseparáveis da verdadeira orientação espiritual.

Em segundo lugar, um outro quesito inegociável para o mentor é a humildade para estar sob os cuidados de outros. Como destaca Richard Foster:

“se tivermos a humildade de crer que podemos aprender de nossos irmãos e irmãs, entenderemos que alguns se aprofundaram mais no centro do que outros, podemos ver a necessidade da orientação espiritual. Como disse Virgil Vogt, ‘Se você não pode ouvir a seu irmão, não pode ouvir ao Espírito Santo’.”9

 

O orientador precisa ter a consciência de que, na linguagem de Henri Nouwen, ele é um “curador ferido”. Ele não é detentor de todas as receitas e soluções para os mais variados problemas da vida, nem mesmo é alguém isento de tropeços e falhas, muito menos pode ser visto como alguém acima da média dos pobres mortais. O orientador é alguém sincero em sua busca por Deus, experimentado nesta jornada, mas sob a constante ação da graça de Deus e, por estar sendo ajudado por outros, torna-se capaz de fazer o mesmo.

Sendo assim, o início de nossa jornada como mentores pode estar numa atividade muito singela e simples. Como sugere Ricardo Barbosa:

“Talvez um primeiro passo nesta direção seja o de aprender a falar de nós mesmos a um amigo ou grupo de amigos. Às vezes, um grupo de oração é um bom começo. Ao invés de apresentarmos os pedidos de oração como normalmente fazemos, por que não falarmos de nós, do nosso mundo interior, da nossa história?”10

 


  1. Howard Clinebell, Aconselhamento Pastoral (São Paulo: Sinodal, 1989), p.109-110.
  2. Eugene Peterson, Working the Angles, (Grand Rapids: Eerdmans, 1993), p.151-152.
  3. Rowland Croucher, Justiça e Espiritualidade (Belo Horizonte: Missão Editora, 1988) p.48.
  4. Working the Angles, p. 150
  5. Working the Angles, p. 160.
  6. Ricardo Barbosa de Souza, Janelas para a Vida (Curituba: Encontro, 1999) p. 43-44.
  7. Croucher, 49 e 50.
  8. Working the Angles, p. 3-4
  9. Citado por Croucher, p. 54-55
  10. Janelas para a Vida, p. 45.